ENTREVISTA RACHEL TRAJBER
ENTREVISTA RACHEL TRAJBER
“Precisamos trabalhar
a educomunicação”
A professora doutora Rachel Trajber (DF) – MEC abordou no I Congresso Goiano de Educação Ambiental - Congea a formação de educadores ambientais. E foi enfática dizendo que a educação ambiental precisa ser mais revolucionária do que sempre foi e é preciso trabalhar a educomunicação (ato de educar utilizando os meios de comunicação de massa - Wikipédia) com os sistemas de educação. Ela mostrou o trabalho do MEC com publicações que auxiliam os professores nas aulas de educação ambiental e que foram distribuídas até mesmo para escolas distantes de comunidades quilombolas. Citou também trabalho em conjunto realizado com oito universidades federais e um Cefet. Tudo pela formação de professores, educadores ambientais, diante de um momento que, por exemplo, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) comprova que a ação humana é que está transformando o planeta: e para pior. Mesmo com pouco tempo antes de embarcar em vôo de volta a Brasília e antes de sua palestra ela atendeu gentilmente a Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea. Logo após sua palestra respondeu a última pergunta desta entrevista a Wagner Oliveira.
I Congea - Como formar educadores ambientais?
Rachel Trajber - Estamos trabalhando numa perspectiva de educadores e educadoras ambientais populares, pensando no macro. Transformamos todos em educadores e educadoras. E todos somos aprendizes. Como podemos ser educadores e educadoras. A população toda do Brasil. Essa é uma meta geral. No MEC trabalhamos com sistemas formais de ensino. Esses educadores e educadoras já se tornam professores e professoras. Temos de trabalhar com adultos e crianças também. Nessa visão de educação ambiental muito mais ampla. Uma visão de mudança sistêmica, de paradigma na sociedade. Estávamos trabalhando na formação presencial. Organizando todas essas instâncias de formação presencial. Agora estamos trabalhando com educação semipresencial e à distância por causa da dificuldade que os professores têm de sair de sala de aula. Estamos também trabalhando nas políticas de diretrizes curriculares de educação ambiental para tornarmos a formação inicial, todas as licenciaturas, uma área de conhecimento que tem características próprias, mas uma área de conhecimento obrigatória para todas as licenciaturas. Teríamos a formação inicial de professores e não só a formação continuada. Estamos construindo com universidades todos esses processos formadores.
I Congea - Que avaliação a sra. faz dos educadores ambientais de hoje?
Rachel Trajber - A educação ambiental é uma área emergente que está começando a aparecer e é muito sofisticada em termos de todas as formas de conhecimento que contribuem para a construção dessa educação ambiental. É esse olhar para o planeta e para a sociedade de forma completamente diferente, que tem o planeta
“A educação ambiental precisa ser simultaneamente global e microlocal. Pensar e agir local e globalmente a partir dos conhecimentos e com profundo respeito pelos saberes tradicionais que fizeram o cerrado se manter cerrado”.
I Congea – Quais são os melhores rumos para a educação ambiental a partir de agora?
Trajber - Ela tem de ser mais revolucionária do que sempre foi. Ela sempre foi revolucionária, mas agora precisamos torná-la muito mais revolucionária. E precisamos de pessoas como você, que trabalha com os meios de comunicação. Precisamos trabalhar a educomunicação com os sistemas de educação para que todos possam construir essa comunicação planetária sob outras perspectivas. É mudança de valores mesmo. E estamos vendo essa crise financeira e a crise ambiental ao mesmo tempo acontecendo. E as duas têm como base uma sociedade que não consegue se sustentar. Nem economicamente nem ambientalmente. Porque ela constrói tecnologias e não consegue lidar com elas, com os efeitos colaterais dessas tecnologias. E tecnologias econômicas também. O consumismo, por exemplo. Estão na base dos problemas duas crises que são simultâneas. Se você mexe com o consumismo, mexe com as bases dessa sociedade. Se você mexe com a competição, mexe com as bases dessa sociedade. Foram geradas duas crises.
I Congea - Educação ambiental curricular e educação ambiental realizada por órgãos públicos das várias esferas, federal, estadual, municipal ou ONGs. O que seria mais eficiente?
Trajber - Todas juntas. Fortalecidas por essa visão sistêmica, visão da emergência dessas características. Dessa nova leitura da sociedade. E juntas trabalhando para que nos sistemas de ensino consigamos mudar junto com as redes de educação ambiental que trabalham muito mais no local e tornam essas políticas públicas um modo de vida cotidiano nas escolas, ONGs, nos territórios. E o Ministério do Meio Ambiente e essa transversalidade por todos os outros ministérios. Precisamos mudar a visão de mundo mesmo porque o que ocorre é radical.
“ONGs estão fazendo um trabalho lindo de polinização mesmo. Não é nem de enraizamento só, é de polinização dessa idéia das frutas do cerrado”.
I Congea - Goiânia está na região dos cerrados e o Distrito Federal também. A educação ambiental no cerrado deve ser diferente de outras partes do Brasil?
Trajber - A educação ambiental precisa ser simultaneamente global e microlocal. Pensar e agir local e globalmente a partir dos conhecimentos e com profundo respeito pelos saberes tradicionais que fizeram o cerrado se manter cerrado. E questionando o consumismo, monocultura, competição que estão destruindo o cerrado que é o berço das águas, o berço da vida no nosso país. Não têm o menor respeito pelo cerrado e ele é de beleza, riqueza e delicadeza tão grandes.
I Congea - Fazer com que as comunidades locais sejam respeitadas e tenham sustentabilidade e condições de tirar sua própria sobrevivência do local onde vivem?
Trajber - Há uma ONG, não me recordo o nome agora, que trabalha com frutas do cerrado. E essa ONG está fazendo um trabalho lindo de polinização mesmo. Não é nem de enraizamento só, é de polinização dessa idéia das frutas do cerrado. E eles têm uma clareza que se não mantermos o cerrado com essas relações de ecossistemas, ecossistêmicas desse bioma tão rico, como ele é na sua amplitude, perderemos essas frutas que só se dão na inter-relação entre elas. Produzem sorvete, utilizam baru e são muito interessantes essas relações com as populações nativas.
“Cada Estado ou distrito tem uma forma de lidar com educação ambiental. Goiás é muito forte”
I Congea – O Distrito federal tem dado algum passo à frente em relação à educação ambiental?
Trajber - Não tem. Cada Estado ou distrito tem uma forma de lidar com educação ambiental. Goiás é muito forte. Porque os coletivos jovens em Goiás são de uma potência tão grande. E o trabalho integrado da Ceduc com a Universidade Federal de Goiás, com os coletivos jovens...
“É incrível a mobilização. Goiás é um belo exemplo de integração sistêmica na educação ambiental”.
I Congea - Participantes do congresso insistem em perguntar e é uma questão polêmica. Educação ambiental deve ser disciplina? Deve ter nota?
Trajber - Não. Fica muito chato. Fora isso, vai na direção contrária do que conversamos. De como transformamos a visão de mundo a partir de todas as áreas de conhecimento. Não só uma disciplina isolada, que todos vão querer fazer as provas e que acaba sendo uma coisa técnica e não discutida a partir de todos os pontos de vistas e de todas as formas de saberes.
Foto: Wagner Oliveira
Fonte: I CONGEA
